23 de ago de 2016

A Marca

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Quando eu era criança, bem novinha,
meu pai comprou o primeiro telefone
da nossa vizinhança.
Eu ainda me lembro daquele aparelho
preto e brilhante
que ficava na cômoda da sala.
Eu era muito pequeno para alcançar o telefone,
mas ficava ouvindo fascinado enquanto
minha mãe falava com alguém.
Então, um dia eu descobri que dentro daquele
objeto maravilhoso morava uma pessoa legal.
O nome dela era "Uma informação, por favor"
e não havia nada que ela não soubesse.
"Uma informação, por favor" poderia fornecer
qualquer número de telefone e até a hora certa.
Minha primeira experiência pessoal com esse
gênio na garrafa veio num dia em
que minha mãe estava fora,
na casa de um vizinho.
Eu estava na garagem mexendo
na caixa de ferramentas quando bati
em meu dedo com um martelo.
A dor era terrível mas não havia
motivo para chorar,
uma vez que não tinha ninguém em casa
para me oferecer a sua simpatia.
Eu andava pela casa, chupando o dedo
dolorido até que pensei:

-O telefone!

Rapidamente fui até o porão, peguei uma pequena
escada que coloquei em frente à cômoda da sala.
Subi na escada, tirei o fone do gancho e
segurei contra o ouvido.
Alguém atendeu e eu disse:

-"Uma informação, por favor".

Ouvi uns dois ou três cliques e uma voz suave
e nítida falou em meu ouvido.

-"Informações.“

-"Eu machuquei meu dedo...", disse, e as
lágrimas vieram facilmente,
agora que eu tinha audiência.
"A sua mãe não está em casa?",
ela perguntou.

- "Não tem ninguém aqui...", eu soluçava.
"Está sangrando?"

- "Não", respondi. "Eu machuquei o dedo
com o martelo, mas tá doendo..."

-"Você consegue abrir o congelador?",
ela perguntou. Eu respondi que sim.

- "Então pegue um cubo de gelo e
passe no seu dedo", disse a voz.
Depois daquele dia, eu ligava para
"Uma informação, por favor" por qualquer motivo.
Ela me ajudou com as minhas dúvidas de geografia e
me ensinou onde ficava a Filadélfia.
Ela me ajudou com os exercícios de matemática.
Ela me ensinou que o pequeno esquilo que eu trouxe
do bosque deveria comer nozes e frutinhas.

Então, um dia, Petey, meu canário, morreu.
Eu liguei para "Uma informação, por favor"
e contei o ocorrido.
Ela escutou e começou a falar aquelas coisas que
se dizem para uma criança que está crescendo.
Mas eu estava inconsolável.
Eu perguntava: "Por que é que os passarinhos
cantam tão lindamente e trazem tanta alegria
pra gente para, no fim, acabar como um monte
de penas no fundo de uma gaiola?"
Ela deve ter compreendido a minha preocupação,
porque acrescentou mansamente:
"Paul, sempre lembre que existem outros mundos
onde a gente pode cantar também..."
De alguma maneira, depois disso eu me senti melhor.

No outro dia, lá estava eu de novo. "Informações.",
disse a voz já tão familiar.
"Você sabe como se escreve 'exceção'?"
Tudo isso aconteceu na minha cidade natal
ao norte do Pacifico.
Quando eu tinha 9 anos, nós nos mudamos para Boston.
Eu sentia muita falta da minha amiga.
"Uma informação, por favor" pertencia aquele velho
aparelho telefônico preto e eu não sentia nenhuma
atração pelo nosso novo aparelho telefônico
branquinho que ficava na nova cômoda na nova sala.

Conforme eu crescia, as lembranças daquelas conversas
infantis nunca saiam da minha memória.
Freqüentemente,em momentos de duvida ou perplexidade,
eu tentava recuperar o sentimento calmo de segurança
que eu tinha naquele tempo.
Hoje eu entendo como ela era paciente, compreensiva
e gentil ao perder tempo atendendo
as ligações de um menininho.

Alguns anos depois, quando estava indo para a faculdade,
meu avião teve uma escala em Seattle.
Eu teria mais ou menos meia hora entre os dois vôos.
Falei ao telefone com minha irmã, que morava lá,
por 15 minutos.
Então, sem nem mesmo sentir que estava fazendo isso,
disquei o número da operadora daquela
minha cidade natal e pedi:

- "Uma informação, por favor."

Como num milagre, eu ouvi a mesma voz doce e
clara que conhecia tão bem, dizendo: "Informações."
Eu não tinha planejado isso, mas me peguei perguntando:
"Você sabe como se escreve 'exceção'?"
Houve uma longa pausa.
Então, veio uma resposta suave:
"Eu acho que o seu dedo já melhorou, Paul."
Eu ri. "Então, é você mesma!", eu disse.
"Você não imagina como era importante
para mim naquele tempo."
- "Eu imagino", ela disse.
"E você não sabe o quanto significavam para
mim aquelas ligações. Eu não tenho filhos
e ficava esperando todos os dias que você ligasse."

Eu contei para ela o quanto pensei nela todos
esses anos e perguntei se poderia visitá-la
quando fosse encontrar a minha irmã.
- "É claro!", ela respondeu.
"Venha até aqui e chame a Sally.“
Três meses depois eu fui a Seattle visitar minha irmã.
Quando liguei, uma voz diferente respondeu:
"Informações." Eu pedi para chamar a Sally.
-"Você é amigo dela?", a voz perguntou.
- "Sou, um velho amigo. O meu nome é Paul."

-"Eu sinto muito, mas a Sally estava trabalhando
aqui apenas meio período porque estava doente.
Infelizmente, ela morreu há cinco semanas.“
Antes que eu pudesse desligar, a voz perguntou:
- "Espere um pouco. Você disse que o seu nome é Paul?
- "Sim.“
- "A Sally deixou uma mensagem para você.
Ela escreveu e pediu para eu guardar caso você ligasse.
Eu vou ler pra você."

A mensagem dizia: "Diga à ele que eu ainda
acredito que existem outros mundos onde a gente
pode cantar também. Ele vai entender."

Eu agradeci e desliguei.
Eu entendi...

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PAZ E LUZ PARA TODOS VOCÊS!!!
  
-:¦:- E -:¦:-

Um Dia Abençoado para todos!!

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